Este
post poderia ser um editorial**.
É certo que já por aqui dei conta, de forma sucinta, do princípio de que parto.
Mas ou por tê-lo feito mais ou menos cripticamente, como é apanágio da casa, ou
por julgar que muitos (dos poucos!) dos que hoje me lêem ainda aqui não vinham
quando assim o disse, lá vai:
O
mundo dos sonhos é, muitas vezes, um bom termo de comparação para o mundo da
razão.
E é-o porque os sonhos usam-na, misturam-na com a ilusão, baralham e dão.
Não
sou seguidista de ninguém. Nunca fui ista do que quer que fosse, homem ou
escola. Também não sou um homem de vasto conhecimento. Interessou-me sempre
mais, dentro do que se considera ser a razão e o conhecimento humanos, perceber
a dada escala o funcionamento de certas coisas. Saber do que falo, quando falo
de algo, e saber a escala, os limites que se impõem. E quando falo do que não
sei, fazê-lo com a consciência disso mesmo, fazê-lo com a incerteza que todos
temos àcerca de tudo, fazê-lo sem dar o passo maior do que a perna, evitando o
disparate.
Se
o consigo ou não, isso é outra história. As mais das vezes, sei que o não
consigo.
Ora
o princípio de que parto, que alguns dirão determinista - eu sem saber se o é
ou não, que inscrições em catálogos foi coisa que nunca me preocupou - é que
tudo evolui de acordo com um mecanismo bem determinado mas indeterminável pela
mente humana.
Basicamente - não haverá acasos.
Não haverá acasos, não haverá sorte, não haverá vontade, não haverá livre
arbítrio.
Somos todos e tudo o que nos envolve, fruto das circunstâncias, internas e
externas. Se é que o interno e o externo são de fácil distinção.
No actual estado das coisas, bem ou mal, pouco importa, supomos, os que
acreditam na ciência, que somos um somatório de partículas elementares. Somos
nós e tudo o que nos rodeia. Matéria e energia, assim o dizemos. Matéria e
energia, tanto quanto as diferenciamos e voltamos a confundir.
O
importante para mim é que, partindo desse princípio, apenas sou a resultante de
qualquer coisa que desconheço. Ao estar a escrever estas linhas, não sou eu, é
o conjunto de matéria e energia que tem a minha forma. É uma ordem dada algures
no tempo remoto que se complicou e assim resultou. Um passo no caos, um passo
na ordem, um passo no tempo, um passo seja no que fôr. Nada mais do que isso.
Como já aqui o disse, se não fosse ateu, encaixaria nos divinos desígnios toda
a sorte de ordem das coisas. Não o sendo, não sei em que a encaixar. Melhor
dizendo, não tenho crença onde a encaixar.
Mas
partindo deste princípio, de cada vez que me dá a ilusão para julgar que existe
de facto uma vontade própria, um livre arbítrio qualquer que seja, caio no
mundo de Alice, que é onde de facto vivo.
É que tem que ser forte a ilusão de que mandamos nas coisas, decidimos a nossa
vida, seguimos por aqui e não por ali.
Para que nos deitemos a pensar na primeira pessoa.
Sujeito-me assim ao mundo de Alice, como todos os outros.
Mas continuo convencido (e posso eu convencer-me de alguma coisa?) da mesma
ilusão, dentro dela, como nos sonhos.
Como nos sonhos - e é aqui que cabem - em que por vezes, saltamos de um sonho
para o outro, julgando saber que o primeiro é sonho e o segundo o não é.
Supondo
que é de níveis de compreensão das coisas ou de fé numa crença de que a
compreensão é por ali e não por acolá, que se trata, então suponhamos pois que
os sonhos são uma boa comparação.
Quando se salta de sonho em sonho, sonhando que um é realmente um sonho e o
outro o não é, podemos dizer que descemos ou subimos de nível, como se quiser.
Aqui, neste argumentário absurdo, passo ao nível seguinte, o qual é, encarando
as coisas tal como o mundo de Alice dita que eu as veja, uma combinação de
seres vivos e matéria desprovida de vida. E de energia.
Ora aqui convenço-me, iludo-me com o seguinte:
A vida, nas suas mais diversas formas, parece ter um único fito, o de
sobreviver. Seja lá a vida o que fôr. Cada um dos seres dela animados mais não
faz do que abrir caminho a esse destino. Sobrevivemos, reproduzimo-nos,
cuidamos das crias, uns mais do que outros.
No mundo de Alice, chamamos amor, chamamos paixão à pulsão da sobrevivência da
espécie que conduz à reprodução.
Chamamos outros nomes a outras pulsões, mas todas elas concorrem para o mesmo
fim.
Regulamo-nos, convencidos da bondade das normas. O fim em vista é sobreviver.
Em
alturas como a que acabámos de viver, fala-se muito em extrair ensinamentos das
catástrofes.
Se
a grande questão, do ponto de vista do Homem, que é o único ponto de vista que
conhecemos, é a de sobreviver, então é mais que provável que alguns
ensinamentos se retiraram pelos séculos dos séculos.
No entanto, não se podem ver os riscos de forma absoluta como alguns hoje
teimam em ver.
É que é arriscado viver, dizem as vozes.
Ninguém abandonará as margens do Índico porque ele de vez em quando delas sai. Como
ninguém o fez no Nilo, no Tigre, no Eufrates, no Ganges.
A sobrevivência está ali, o risco é conhecido, é calculado depois de cada
tempestade e esquecido com o tempo.
Tal como nós o fizemos em Lisboa.
A espécie humana carece de ser vista a outra escala. À escala em que a Natureza
a defende e a ataca. À escala em que dizima parte de nós com métodos que podem
ser biológicos, intrínsecos e não-biológicos.
Os métodos biológicos com que nos tem regulado são de longe os mais mortíferos.
Pestes, pragas de toda a sorte que, a espaços, nos controlam a disseminação
pelo globo.
Depois, vêm os intrínsecos. Os que nós próprios usamos para nos deceparmos. Guerras
constantes, massacres gritantes, sujeições esclavagísticas que terminam em
massacre surdo, outros métodos que hão-de vir.
Só muito depois, este tipo de fenómenos. O chamado poder dos elementos. É de
longe, o menos mortífero de todos. Mas talvez o que mais se teme hoje em dia.
Talvez não tenha sido sempre assim. É provável que descendamos de uma fabulosa
luta contra os elementos, antes de tudo o mais.
A necessidade de controlar a espécie (se é que ela existe, em nome de uma
arquitectura suprema) ou o simples acaso (e afinal existem no mundo de Alice?)
mostra-nos amiúde que estas coisas acontecem. E mostrar-nos-á até que não reste
um só homem sobre a Terra.
É
claro que a nossa luta pela sobrevivência se encarregará de imaginar pequenas e
grandes coisas em nossa defesa.
À semelhança da gaiola pombalina que, como se viu, ainda não foi posta à prova.
À semelhança das construções japonesas actuais, que apesar do seu refinamento e
da constante aprendizagem, ainda não mataram o problema.
Como se fez com as vacinas, com os diversos mecanismos que desenvolvemos no
combate às pragas.
Mas nada disso impedirá novas formas de destruição. Podemos disso estar certos.
Por
fim, já em outro nível, mais baixinho, sempre no mundo das ilusões, continuo a
espantar-me com os crentes na razão.
Com os que tanto clamam por ela, sem cuidarem de rever os seus cálculos.
Que tanto a exigem e dela fazem tábua-rasa.
Que tanto criticam e não se olham ao espelho.
Que tanta coerência pedem sem saberem o que é e em que quadro vigora, logo não
a tendo em conta.
Que dividem a política no mais reles dos Sporting - Benfica, em que os da cor
são sempre bons e os outros sempre maus.
Que não são capazes de extrair nem sequer as mais próximas consequências do seu
argumentário. Fosse ele passado à prática.
Por mim, reitero os meus votos de que o mundo jamais seja feito de acordo com
os meus desejos.
E
volto a sonhar, pensando que saio do mundo de Alice.
*Também retalhos de conversas com o Gato
**E passa a ser um editorial perene
18
de Janeiro de 2005, ainda, como se lê, no rescaldo do macaréu no suleste asiático.
MCV